Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silencio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relogio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
é pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Ja gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
ja não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não ha nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugenio de Andrade
domingo, dezembro 09, 2007
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3 comentários:
Descobri este poema há pouco tempo..e, por coincidência, ou não, ele traduz o meu presente....
Mas depois do adeus, vem uma nova vontade e um novo sorriso...
:)um beijo do tamanho do meu coração
cat.
PS: boas noticias amiga: os astros estão do nosso lado em 2008...diz que vai ser um ano de sucesso para as balancinhas!ihihihi
Sei que é triste este poema,mas há anos que o conheço e adoro!...
A ti, balancinha, apenas tenho a dizer que "não há mal que sempre dure..." (o resto é mentira, ou então não...)
Beijo,
Ritinha
nem sei k dizer...
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